O Mito

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Escrito por Anamar Moncavo

 

É frequente, no dia a dia, ao escutarmos uma história que consideramos falsa e sem correspondência com a realidade, ouvirmos (ou dizermos): “Isso não passa de mito!”. Será que, falando assim, sabemos verdadeiramente o significado do mito, ou apenas reproduzimos, sem reflexão, um pré-conceito, um pré-juízo? Afinal, você sabe dizer o que é o mito?

Ao contrário do que o senso-comum veicula, mito não é sinônimo de ideia falsa. Mas fazemos essa relação de modo quase instintivo, porque normalmente consideramos mito como expressão cultural de povos primitivos ou inferiores, que, sem saber como explicar a realidade, inventavam histórias fantasiosas e arbitrárias. O mito, constituindo-se no imaginário social como um modo de pensar oposto ao pensamento científico e lógico, é tomado, pejorativamente, como narrativa enganosa e falsa.

Curiosamente, tanto o mito quanto a ciência suprem as mesmas necessidades: ambos buscam compreender o mundo, ainda que sigam por caminhos distintos.

O mito está ligado, segundo o estudioso Georges Gusdorf, a um conhecimento inicial que o homem tem de si mesmo e do seu ambiente. O mito é uma narrativa tradicional de profundo poder de explicação e significado simbólico, compartilhada pelos membros de uma sociedade.

Seguem algumas características do mito:

  1. Narra como as coisas foram em um passado remoto e impreciso;
  2. Faz referência ao fabuloso e ao sobrenatural. Ex.: deuses, semideuses, heróis, seres fantásticos etc.;
  3. Não se importa com contradições, não segue necessariamente uma coerência lógica;
  4. Modo de transmissão essencialmente oral;
  5. Sua legitimidade repousa na autoridade do enunciador.

Os mitos frequentemente constituem-se como cosmogonias, narrando o nascimento do universo, sua ordenação e perecimento. Temos, também, as teogonias, genealogias que narram a geração ou o nascimento dos deuses, semideuses e heróis. Mas não existem apenas estes. Os mitos heroicos, por exemplo, narram as aventuras e façanhas dos heróis. Os mitos também podem contar a origem de alguma coisa, do fogo, da água, do bem e do mal, dos fenômenos naturais etc. A seguir, o início da “Teogonia” de Hesíodo:

 

“Primeiro que tudo houve o Caos, e depois

a Terra de peito ingente, suporte inabalável de tudo quanto existe,

e Eros, o mais belo entre os deuses imortais,

que amolece os membros e, no peito de todos os homens e deuses,

domina o espírito e a vontade esclarecida.

Do Caos nasceram o Érebo e a negra Noite

e da Noite, por sua vez, o Éter e o Dia.

A Terra gerou primeiro o Céu constelado,

com seu tamanho, para que a cobrisse por todo

e fosse para sempre a mansão segura dos deuses bem-aventurados.

Gerou ainda as altas Montanhas, morada aprazível

das deusas Ninfas, que habitam os montes cercados de vales.”

 

Segundo Joseph Campbell, o mito possui quatro funções: a função mística, que abre o mundo para a dimensão do mistério. A segunda função abre para a dimensão cosmológica – mostrando a forma do universo, mas de tal modo que o mistério ainda se manifesta nele. A terceira função é a sociológica – na medida em que o mito suporta e valida determinada ordem social. Existe ainda a quarta função do mito, com a qual J. Campbell pensa que todos nós devíamos buscar nos relacionar – a função pedagógica, na medida em que o mito pode ensinar a como viver uma vida humana sob qualquer circunstância.

Os mitos contêm em si valores e refletem as visões de mundo das suas respectivas sociedades; nesse sentido, eles direcionam o olhar e servem de modelo exemplar para a conduta. Por exemplo: muitas culturas de tribos indígenas veem Deus na natureza; por isso, tudo para eles é sagrado e deve ser respeitado – fazemos parte da teia da vida, mas não a tecemos. A exploração da natureza que presenciamos atualmente e já há bastante tempo parte, fundamentalmente, de uma condenação bíblica da natureza, ainda segundo Campbell. Deus está separado da natureza, e ela é condenada por Deus. Nós, seres humanos, feitos à imagem e semelhança de Deus, estamos destinados a sermos senhores de um mundo que existe para nos servir.

O mito (assim como a religião, as crenças e os ritos) reflete a experiência do sagrado. De acordo com o historiador de religiões Mircea Eliade, o sagrado é um elemento da estrutura da consciência humana:

 

“É difícil imaginar de que modo o espírito humano poderia funcionar sem a convicção de que existe no mundo alguma coisa de irredutivelmente real; e é impossível imaginar como a consciência poderia aparecer sem conferir significado aos impulsos e às experiências do homem. A consciência de um mundo real e significativo está intimamente ligada à descoberta do sagrado. Por meio da experiência do sagrado, o espírito humano captou a diferença entre o que se revela como real, poderoso, rico e significativo e o que é desprovido dessas qualidades, isto é, o fluxo caótico e perigoso das coisas, seus aparecimentos e desaparecimentos fortuitos e vazios de sentido.”

 

A consciência mítica, para Georges Gusdorf, é, antes de qualquer coisa, um complexo de sentimentos que corresponde à busca das satisfações exigidas pelas necessidades humanas fundamentais. O mito tem um significado vital de oferecer segurança na vida e sobre a vida, conjurando a angústia e a morte.

Para o homem mítico, não há duas imagens do mundo, uma “objetiva” e “real” e outra “mítica”; o que há é uma leitura única da paisagem. Por isso, para aqueles que vivenciam a narrativa mítica, o mito não é mito. A religião é composta por conjuntos de mitos, por exemplo. Então, qual será sua diferença do mito? A religião possui comportamentos organizados, como a hierarquia clerical ou sacerdotal e reuniões regulares. Além disso, ela tem escrituras sagradas, através das quais é oferecido aos fiéis um corpo de verdades que manifestam mandamentos divinos a serem seguidos e respeitados.

Os mitos não estão mortos. Eles não são produto de povos primitivos e inferiores, pois estão vivos até hoje, através da religião, principalmente a cristã, na nossa sociedade. Além disso, muitas histórias presentes em filmes e livros seguem estruturas míticas, apesar de não serem mitos. Nesse sentido, podemos citar “O Senhor dos Anéis” e “Star Wars”. Na atualidade, os mitos não desempenham mais o papel que desempenhavam outrora. Porém, o mito ainda é uma forma de conhecimento, um meio de tornar a realidade e a interioridade humana inteligíveis.

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